Capítulo 23

Demi abriu os olhos com dificuldade, focalizando o quarto ainda um pouco escuro, sendo invadido por raios de sol pelas frestas da janela. Sentiu uma corrente de ar frio eriçar todos os seus pelos, percebendo que estava nua, sendo coberta apenas por um lençol branco. Levantou a cabeça, olhando de soslaio para Joseph que dormia profundamente, e lembrando da noite passada. Mordeu o lábio, vendo sua camisola jogada no chão do quarto. Achou graça ao imaginar a face de Claire ao ver aquilo. Deitou a cabeça novamente, sentindo o braço de Joseph a puxar mais fortemente contra ele, como se pudesse fugir a qualquer momento. Não fugiria. Fechou os olhos, voltando a dormir.

 - Boa tarde, Demi - Claire disse, assim que a patroa entrou na cozinha. A morena logo percebeu o olhar acusador da empregada. Sorriu, ignorando.
 - Boa tarde, Claire. Boa tarde, Judith. Estou faminta!
Petiscou algo no fogão, sendo expulsa pela mais velha da cozinha. Claire a acompanhou, arrumando a mesa do almoço. Demi perguntou aonde Joseph estava.
 - Estava no curral preparando os cavalos para um passeio.
A morena ouviu o marido responder, entrando em casa. Sentiu algo diferente quando o encarou. Como se estivesse feliz e nervosa por vê-lo ali. Queria se aproximar, abraçar, beijar. Joseph a encarou mais apaixonado do que nunca. Os olhares não conseguiam despistar um do outro. Até que a morena quebrou o contato, sentando à mesa. Joseph foi lavar as mãos para poder fazer o mesmo.
O almoço não foi silencioso como de costume. O casal arranjava um assunto para comentar, enquanto saboreavam a comida de Judith. Era um almoço especial. A lua de mel tão esperada havia finalmente acontecido. Demi sentia um nervoso gostoso toda vez que o marido a olhava daquele jeito intenso. Não era mais incômodo, agora sentia algo bom. Algo que se assemelhava quando o cavaleiro a olhava. Estaria apaixonada? Seu estômago revirou com a possibilidade.
 - É um pouco mais a frente! - Joseph disse a Demi, enquanto cavalgava na sua frente. Ela seguia, curiosa. Depois que descansaram o almoço, saíram para o passeio que Joseph havia planejado.
 - Não me recordo mais do caminho.
 - Trarei-a mais vezes se gostar - respondeu, seguindo mais um pouco. Ele não precisou avisar a morena que haviam chegado, pois era óbvio. O barulho das águas que ela ouvia vinham de uma cachoeira linda. Aquele lugar parecia ter sido esculpido a mão. Elogiou, olhando em volta. - Meus pais sempre me traziam aqui.
Eles amarraram os cavalos e sentaram perto da água, tirando os sapatos. Joseph começou a contar a história de uma luta que havia acontecido ali e Demi prestou atenção, interessada. Ela adorava esse tipo de assunto.
 - Tinha vontade de ser professora, mas meus pais nunca permitiram. Cheguei a ensinar algumas coisas básicas para os filhos dos escravos lá da fazenda. Tu precisavas ver a felicidade deles ao saberem escrever seus nomes!
 Joseph sorriu, ao vê-la abrir aquele sorriso lindo e contente. Havia como ser mais perfeita?
 - E não tens mais vontade?
 - Sim, mas não vejo alternativas. Na casa de Zira tem espaço, mas precisamos de materiais e ainda há os comentários da sociedade...
 - Nos materiais posso te ajudar. Desde quando ligas para o que o povo fala?
 - Sou casada - ela respondeu somente e Joseph entendeu. Tudo que ela fizesse, recairia sobre ele. O marido tinha que controlar sua mulher. Joseph achou a coisa mais linda ela ter essas consideração por ele, pensar que podia prejudicá-lo.
 - Não te preocupes comigo, irei te apoiar.
 - Obrigada - ela respondeu feliz, encarando o marido. Joseph se aproximou dela, beijando sua bochecha levemente e a morena fechou os olhos, esperando que selassem seus lábios. O marido beijou sua boca e ela correspondeu, abraçando-o pela nuca e aos poucos deitando na grama.
O beijo era doce e apaixonado, acompanhado de carícias. Demi sentiu novamente aquela mesma sensação que tinha com o cavaleiro e dessa vez não se preocupou. Abraçou Joseph mais forte, enquanto o homem pegava em seus cabelos. O beijo se tornou mais quente como o da noite passada. Suspirou sem desgrudar seus lábios,  quando ele começou a acariciar de sua perna coberta pela calça até sua barriga. Ali o contato da mão gelada com a pele quente dela, a fez se contorcer no chão.
Joseph beijou seu pescoço e ela puxou novamente para um beijo. O homem interrompeu o beijo do nada, olhando para a estrada.
 - O que foi? - Demi perguntou, estranhando a situação.
 - Tem alguém vindo.
Demi olhou para a estrada e não viu nada. Já ia negar, quando ouviu as calvagadas. Endireitou-se, levantando com Joseph. Três homens se aproximavam em seus cavalos. O marido chamou Demi para perto dos seus cavalos e um dos homens reprovou a ação.
 - Pode parando, senhorzinho - ele ordenou com a voz rouca de fumante, descendo de seu cavalo. Tinha uma aspecto de sujo e bêbado, de certa fazia parte da milícia.
 - Está falando comigo?
 - Tá vendo outro senhorzinho aqui? - ele debochou, olhando para os amigos que riram. - Essa tua mulher também tá mais pra macho com essas roupas, mas é contigo mesmo que eu tô falando.
 - Nos deem licença - Joseph disse, indo desamarrar seu cavalo e o homem atirou na árvore, fazendo-o recuar. O miliciano se aproximou de Joseph, apontando a arma para ele.
 - O senhorzinho é surdo ou quê? Vamos! Vai pra lá! Fica do lado dela, agora!
Joseph obedeceu ficando ao lado de Demi. Os outros dois homens desceram do cavalo também, pondo a mão sobre as armas.
 - O que você quer?
 - Quem fala aqui sou eu! - gritou, aproximando-se. Joseph arrependeu-se amargamente por não ter trazido sua pistola.- Nós já estamos sabendo de tudo. Estamos de olho no casalzinho faz um tempo...
 - De tudo o quê? - Demi perguntou já de saco cheio daquele enrola enrola.
 - Fica calma, bonitinha. Seria triste te ver com um furo no meio da testa.
 - Deixa ela em paz - Joseph disse, puxando Demi e se pondo de frente pro homem. - Continue a dizer.
 - Ficou curioso, senhorzinho? É isso mesmo que você ouviu. Desde o dia em que essa vadia estava perambulando pela estrada sozinha e quis nos despistar. O boticário descreveu você. Estão ajudando o Cavaleiro das Trevas, seus malditos!
 - Nós não o conhecemos. Faço parte do Conselho que quer encontrar esse maldito.
 - Mentiroso! - ele gritou na cara de Joseph, enfurecido. - Ajudaram escravos que aquele demônio libertou! Malditos! Vocês vão pagar por isso! E vamos começar com essa puta.
 - Puta é com quem você se relaciona, seu porco! - Demi exclamou descontrolada e com medo, partindo para cima dele. Joseph a segurou. - Tente encostar essas suas mãos podres em mim!
 - Olhem só, meus amigos. Bem que disseram que você é uma oncinha, bonita - ele disse, aproximando-se dela. - E se a gente levá-la conosco? Os nossos amigos vão adorar adestrar essa belezinha.
Joseph aproveitou que o homem estava concentrando em Demetria, chutando a mão que mantia a arma, que caiu no chão. A morena pegou rapidamente, enquanto Joseph mantia o homem com uma chave de braço. Os dois amigos apontaram as armas, não dando tempo de salvar o líder por causa da rapidez.
 - Soltem-no! Vamos atirar!
 - Se atirarem, vamos explodir a cabeça dele - Demi gritou, entregando a arma a Joseph, que pôs na testa do líder. Este que engoliu seco, tenso. - Abaixem as armas! Eu vou atirar.
 - Abaixem seus, imundos! - o homem ordenou aos amigos, rendido. Tentou se soltar, mas Joseph manteu a posição. Eles se olharam e fizeram o que Joseph mandou. Demi rapidamente pegou as duas armas no chão, levando um chute de um que tentou resgatar. Joseph o ameaçou com a arma, fazendo-o se manter de pé.
 - Fiquem quietos! - ele gritou com raiva, enquanto Demi desamarrava os cavalos. - Nós vamos embora e vocês vão ficar aqui parados, senão vou matar os três!
Esperou Demi subir no cavalo e se pôr entre os dois bandidos, apontando a arma para eles. Joseph se aproximou do seu cavalo, empurrando o líder no chão e montando em seu cavalo.
 - Malditos! Isso não vai ficar assim!
 Cavalgaram para longe, com os homens ainda xingando os dois. Chegaram na fazenda e suspiraram tranquilos. O coração de Demi estava a mil. Semelhante a quando fugiu com o cavaleiro. Olhou para Joseph cavalgando até o celeiro ao seu lado e viu a capa preta e a máscara em seu rosto.
 - Ai, meu Deus... - ela exclamou, pondo a mão sobre a testa. Joseph parou rapidamente, descendo do seu cavalo para acudi-la. Ela então tornou a fechar os olhos e enxergou o marido novamente.
 - O que houve? Estás bem?
 - Sim, sim, foi só uma tontura - respondeu, descendo do cavalo também. Joseph a encarou preocupado, dando um abraço apertado na morena. Ela o abraçou de volta, apertando seus braços. Hoje havia ficado com muito medo do que poderia ter acontecido aos dois. Amava Joseph, queria o seu bem.
 - Pode ir para casa, vou deixar os cavalos no celeiro e já estou indo.
 - Não, tudo bem, vou contigo.
Eles caminharam juntos, então. Joseph deixou seu cavalo, colocando um pouco de comida e água. Enquanto Demi fazia o mesmo com o dela. Ao terminar, passou olhando todos os outros, até fixar o olhar em um que conhecia bem. Aquele pelo negro impecável e os olhos escuros eram impossíveis de não serem reconhecidos.
 - Escuridão? - ela sussurrou, aproximando-se dele. O cavalo encostou o focinho na mão dela e assim Demi percebeu que não se tratava de mais uma ilusão. Joseph percebeu, engolindo o seco. - Esse não é o cavalo do...?
 - Sim, é. Ele pediu para deixar aqui.
Aquilo só serviu para Demi lembrar de como gostava do Cavaleiro. Que saudade de estar com ele! E por outro lado, parecia que estava vivendo o mesmo com Joseph! Tomou um banho e deitou, exausta.

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